NADA NO BOLSO OU NAS MÃOS


Dois oceanos não-pacíficos ou os olhos de Maysa

Por duas décadas, de 1956 até sua morte, em 1977, Maysa foi um farol na música brasileira, com seus olhos verdes, a cor rouca, o desencanto na alma. Sua marca ficou em canções que ninguém cantou como ela, como "Se todos Fossem Iguais a Você" ("amar sem mentir, nem chorar/ existiria verdade, verdade que ninguém vê/ se todos fossem iguais a você") ou "O Barquinho", de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, de 1960. Ou, ainda, nas suas composições, como a dolorida "Ouça" ("ouça, vá viver a sua vida com outro bem/ hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém/ o passado não foi o bastante pra lhe convencer/ que o futuro seria bem grande só eu e você). Muito antes de Caetano e Elis, Maysa já estava numa trilha sonora de Almodóvar, em "A Lei do Desejo", com "Ne me Quitte Pas", de Jacques Brel, sucesso que com ela ganhou um toque especial.

Depois de Maysa, vieram muitas outras. Mas nenhuma foi cantada em versos por Manoel Bandeira (que grafava Maísa). É pouco?

 

Um dia pensei um poema para Maísa

"Maísa não é isso

Maísa não é aquilo

Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza?

 

Muito simplesmente

Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo

Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto

Os olhos de Maísa são dois não sei quê não sei como diga dois Oceanos

                                                                                 Não-Pacíficos

 

A boca de Maísa é isto isso e aquilo

Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?

Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca

                                      de Maísa se condói se contrai se contorce como a

                                       ostra viva em que se pingou uma gota de limão.

A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios meu Deus como

                                             os olhos de Maísa podem ser sérios e como

                                             a boca de Maísa pode ser amarga!

Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)"

Cacei imagens delirantes

Maísa podia não gostar

Cassei o poema.

 

Maísa reapareceu de longa ausência

Maísa emagreceu

Está melhor assim?

Nem pior nem melhor

Maísa não é um corpo

Maísa são dois olhos e uma boca

Essa é a Maísa da televisão

A Maísa que canta

A outra eu não conheço não

Não conheço de todo

Mas mando um beijo para ela.

 

Manoel Bandeira

Estrela da Tarde

 



Escrito por Mario às 13h38
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TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA

Já imaginou Sônia Braga, Antônio Fagundes, José Wilker, Helena Inês, Carlos Alberto Ricelli, Armando Bogus, Ney Latorraca, Denis Carvalho, Aracy Balabanian, Aryclê Peres e Ricardo Petraglia nus em pêlo no palco? Pois isso ocorreu, verdade que por menos de um minuto, no musical Hair, que estreou em São Paulo em 1969. A moçada comemorava a chegada da era de Aquarius, o amor livre e o Black Power e protestava contra a guerra. A do Vietnã, porque a nossa dava cana. E, provavelmente, até choque elétrico. 

 

Hair em São Paulo: alguém identifica alguém?

A montagem brasileira, dirigida por Ademar Guerra, chegou no rastro do sucesso da Broadway. Lá, ao contrário do que aconteceu por aqui, uma atriz se recusou a tirar a roupa. Como tinha talento, decidiram abrir uma exceção. O nome da moça era Diane Keaton, que dois anos depois faria sua estréia no cinema e está na estrada até hoje. Por ironia, a única de todo o elenco. Nelson Rodrigues, o sábio, diria que toda nudez será castigada.

 

Diane Keaton, com Barry McGuire (o loiro, cantor de um clássico do rock, Eve of Destruction), e Steve Curry

  O Hair brasileiro também tinha a linda Bibi Vogel, que morreu no último abril, aos 60 anos, em Buenos Aires.



Escrito por Mario às 18h13
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SAIA JUSTA

Numa Hollywood dominada pela vulgaridade e pela mesquinharia, Audrey Hepburn foi – e continua sendo -- sinônimo de elegância, charme e discrição, uma rara unanimidade entre as grandes estrelas.

Mas nem sempre foi assim. Em 1963, quando foi contratada pela Warner para o papel da florista Eliza Doolittle em My Fair Lady, o cinema pôs a boca no mundo . Anos antes, Julie Andrews tinha vivido, com sucesso, a mesma personagem na montagem da Broadway, ao lado de Rex Harrison. Quando comprou os direitos do filme, a Warner chamou Harrison, mas não quis saber de Julie Andrews, então pouco conhecida do público. Queria alguém que atraísse bilheteria.

Audrey não cantou (foi dublada por Marnie Nixon), o que aumentou os protestos. Mesmo assim, com George Cukor, grande diretor de atores, teve uma excelente interpretação. A represália veio no seguinte, na votação para o Oscar: o setor responsável pela indicação de atores vetou seu nome. E mais: trabalhou pesado para dar o prêmio para a atriz de Mary Poppins - ninguém mais, ninguém menos que a própria Julie Andrews.

Foi uma humilhação. Os principais atores de My Fair Lady tinham sido indicados e Rex Harrison acabou ficando com o Oscar de melhor ator. Elegante, como sempre, Audrey compareceu à cerimônia e fez questão de cumprimentar a vencedora.

Audrey Hepburn já tinha um Oscar e não precisou do segundo para se tornar eterna. Passado tanto tempo, alguém consegue imaginar Eliza Doolittle com outra cara que não a dela?

 



Escrito por Mario às 19h36
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SEJA REALISTA, PEÇA O IMPOSSÍVEL...

A história todo mundo conhece. No início de 1968, a Universidade de Nanterre, na França, proibiu a entrada de rapazes nos dormitórios das garotas. Em represália, um grupo de alunos liderados por Daniel Cohn-Bendit, 23 anos, um bolsista alemão de origem judaica, invadiu a secretaria da escola. O governo declarou Dany Le Rouge, o “vermelho”- como ele era chamado pela cor de seus cabelos - indesejável e ameaçou com sua expulsão do país.

Foi o início de uma onda de protestos que em maio tomou conta da França e quase derrubou De Gaulle do poder. Os estudantes saíram para as ruas, com apoio de grande parte da população, de setores do movimento operário e de inúmeras categorias profissionais. Os choques com a polícia foram se tornando cada vez mais violentos. Nas noites de 10 e 24 de maio os enfrentamentos puseram fogo no Quartier Latin.

Dani "Le Rouge": de cara com os "homens"

Os conflitos se arrastaram ao longo de todo o mês, até o governo convocar novas eleições, que venceu por grande maioria. A princípio simpática aos estudantes, a classe média acabou recuando e votando pela “normalidade e contra o radicalismo".

Hoje, muitos daqueles garotos e garotas pensam exatamente como seus pais e votam em Chirac. Mas seus grafites e palavras de ordem permanecem, como lembrança de um tempo em que se sonhava e parecia até possível mudar o mundo:



Escrito por Mario às 16h11
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CORRA, O MUNDO ESTÁ ATRÁS DE VOCÊ...

Seja realista, peça o impossível.

Nós somos todos indesejados. (reação contra a expulsão de Cohn-Bendit)

Camarada, corra, o velho mundo está atrás de você.

Sejam solidários, e não solitários!

Desejar a realidade é bom; realizar os desejos é melhor.

A imaginação toma o poder.

Eu tenho algo a dizer, mas não sei o quê.

Se Deus existisse, seria preciso suprimi-lo.

Abaixo os jornalistas e aqueles que querem manejá-los.

Os sindicatos são bordéis.

A liberdade é o crime que encerra todos os crimes.

Aqueles que fazem as revoluções pela metade nada mais fazem do que cavar seu túmulo.

Álcool mata, tome LSD.

Todo ponto de vista que não é estranho é falso.

Trabalhadores de todo mundo,aproveitem!

A chatice é contra-revolucionária.

O masoquismo, agora, tomou a forma de reformismo.

O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente.

A política está nas ruas.

Operário, você pode ter apenas 25 anos, mas seu sindicato é do século passado.

A arte morreu, não consuma seu cadáver.

A arte morreu, Godard não pode mudar isso.

Paredes têm ouvidos, seus ouvidos têm paredes.

Não tome o elevador, tome o poder.

Quanto mais eu faço amor, mais eu faço revolução; quanto mais eu faço revolução, mais eu faço amor.

Os jovens fazem amor, os velhos fazem gestos obscenos.

Abra o seu coração, assim como a sua braguilha.

Cohn-Bendit vive atualmente na Alemanha e é deputado no Parlamento Europeu pelo Partido Verde.

 

 



Escrito por Mario às 16h08
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Romance em preto e branco

Bem antes de seu irmão Fio Maravilha fazer o Maracanã delirar e se tornar letra de música, o ponta-esquerda Germano também teve seus momentos de glória e não só no campo.

Germano fez sucesso no Flamengo, vestiu a camisa do Brasil em algumas partidas e em 1962, aos 20 anos, foi vendido para o Milan. Perdeu a chance de ser chamado para a seleção brasileira que ganhou o bi-campeonato na Copa do Chile, mas conseguiu uma proeza maior.

Negro e não exatamente milionário, muito menos um galã, Germano conquistou o coração da jovem condessa Giovanna, filha de Domenico Agusta, dono da fábrica de helicópteros Agusta e uma das maiores fortunas do país. Quando a família percebeu que a coisa era séria, fez de tudo para tirar de campo a Contessina, que era menor de idade. Com argumentos sem a mínima preocupação de seguir o dicionário politicamente correto, que aliás ainda nem existia nessa época.  

Foi um escândalo, que virou assunto de jornais e revistas na Europa e no Brasil. Por pressão dos Agusta, o Milan emprestou Germano para o Palmeiras e depois para o Standard Liège que, com ele, venceu o campeonato da Bélgica. A resistência da família não levou a nada. Em 1967, a jovem, rebelde e apaixonada Giovanna fugiu do palácio da família e se casou com Germano, pouco antes de nascer sua filha.

A maioria achava que não daria certo. E não deu mesmo. As diferenças acabaram pesando e o divórcio não demorou muito. Germano voltou ao Brasil e ainda continuou jogando por um tempo. Morreu em 1998, aos 56 anos, na pequena fazenda que tinha em Conselheiro Pena, Minas Gerais, onde nasceu.

Giovanna foi viver em Los Angeles. Casou com um empresário de origem asiática, que se envolveu em escândalos financeiros. As últimas notícias sobre ela dão conta de que vive com um médico que se dedica a cuidar de crianças deficientes. E, naturalmente, é negro. 



Escrito por Mario às 21h19
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O banho mais famoso do cinema

 

 

O banho de Anita Ekberg na Fontana di Trevi em La Dolce Vita é provavelmente a cena de filme mais famosa dos anos 60. Ex-Miss Suécia, Anita tinha 30 anos e quase 20 filmes na bagagem quando foi escolhida por Fellini para fazer Sylvia, a estrela americana que chega a Roma para filmar. Nada do que fez antes era grande coisa: comédias com Dean Martin e Jerry Lewis, Bob Hope e Fernandel. O filme de maior repercussão tinha sido Guerra e Paz, de King Vidor, mas o papel principal ficou com Audrey Hepburn.

 

Ao ver pela primeira vez uma foto de Anita no jornal, Fellini teve a sensação de que ela havia saído de um de seus desenhos: era uma de suas criaturas!. Entrou em contato com o agente dela, que exigiu o roteiro do filme. Mesmo sem ler, já que Fellini praticamente escrevia durante as filmagens, ela aceitou, sem grande entusiasmo. Não tinha a menor idéia de que estava entrando para a história do cinema.

 

Quando os dois se encontraram, o diretor explicou:

 

- Você é a figura dos meus sonhos, que despertou para a vida.

 

Ela foi objetiva:

 

- Não vou para a cama com você.

 

Não foi nem com ele, nem com Marcello Mastroianni. Foi um caso de antipatia mútua desde o primeiro encontro. Ela estava acostumada que os homens dessem em cima dela. Ele não precisava correr atrás das mulheres, além de preferir as magras.

 

Se não fosse a obra de arte que é, La Dolce Vita também entraria para a história por criar um termo que marcaria a vida moderna. O nome que Fellini deu ao fotógrafo, “mais câmera do que homem”, vivido por Walter Santesso, é Paparazzo.



Escrito por Mario às 13h09
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A rainha da Mangueira pelo rei do parangolé

Outra coisa louca que vi ontem: a rainha Elizabeth, da Inglaterra, passou a poucos metros de mim, na rua, num enorme carrão Rolls Royce, pintada feita uma vedete ou miss. Batom carmim, a cara branca pintada, pareceu-me sabe o quê? A grande bicheira desfilando de carrão, como se estivesse dizendo: “eu é que sou a boa, ouviu, seus merdas”, pois a malandragem dela é bem como a de um bicheiro – viver bem, ser admirado, e diante deles todo mundo é otário. (...) Velhas corocas, crianças, mães, todo mundo corria loucamente, excitadíssimo para ver a supermãe, a “mulher”, que passava. Verdadeira loucura coletiva. O pessoal da Mangueira desfilou para ela na Embaixada, e devem ter se sentido realizadíssimos, pois se vestem todo ano de nobres, mesmo de reis e rainhas, e de repente aparece “a rainha”, imagine só que análise grupal genial! Isso é que é bacana hoje: Chacrinha, Elizabeth Taylor, todo mundo é a mesma coisa, como se num gigantesco teatro onde tudo acontece – o consumo-teatro ou a própria geléia-geral (atenção: este termo foi criado pelo Décio Pignatari e é muito bom, não). Só não acho graça quando aparece um chato feito Nixon na geléia – Jacqueline, ex-Kennedy, Onassis, esta é bacana: é a supermalandra. Aliás Onassis é o rei da malandragem da classe dominante: a barra dele é pesadíssima, confesso que não agüento (vide Maria Callas).

 

Hélio Oiticica

Rio, 8 de novembro de 1968, carta a Lygia Clark

 

(Poucos descreveram tão bem esse período dos 60 em tão poucas linhas).

 

 

Passeio real: Elizabeth II em Copacabana



Escrito por Mario às 14h43
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O que se jogava o ano passado em Marienbad ...

Jogava-se a dois. As cartas eram dispostas assim: sete, cinco, três, uma. Na sua vez, o jogador retirava quantas cartas quisesse, mas só de uma fileira a cada lance. Perdia quem tirasse a última.

 

O esquema era o seguinte:

 

                                                     0  0  0  0  0  0  0   

                                                          0  0  0  0  0 

                                                              0  0  0     

                                                                  0

 

Nos 60, a moçada inteleca gastou horas jogando. Conhecer o jogo e se sair bem era ter prestígio garantido. A prova de que o jogador tinha visto O Ano Passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais. Poucos tinham assistido, mas todos sabiam que nao era um filme como os outros.

 

Num grande hotel, barroco, de longos corredores, imensos jardins (do castelo de Nymphenburg, em Munique; foi lá que nasceu o doidão Ludwig II), estátuas gregas, mármores e colunas, os hóspedes passam o tempo em jogos e danças. Quase todos são figurantes. Há apenas três personagens: um homem, uma mulher belíssima (interpretada por

.

Delphine Seyrig),

 

e o marido dela, todos sem nome. O homem diz a ela que se conheceram ali mesmo, um ano antes, e viveram um grande amor. Ela nega, diz que ele está enganado, que não era ela. É uma cantada vulgar? Uma lembrança sofrida? Um sonho? O clima é de mistério, de visões, num roteiro de Alain Robbe-Grillet. Nouveau roman, nouvelle vaghe. Bons tempos: de novo, hoje a França só tem a nouvelle cuisine, que já nem é mais nova.

 

Cria-se, então, uma espécie de jogo entre os três. O homem insiste, tenta convencer. Ela, pouco a pouco, parece ceder, mas se assusta, é toda tensão e, conforme seu mood se veste de branco ou de preto. Por sinal, as palavras que mais fala são “talvez”, “não sei”, “pode ser”. Os dois homens jogam. Jogam três vezes – com cartas, palitos de fósforos e peças de dominó.

 

Na primeira partida, o homem perde talvez por não conhecer o jogo. Na segunda, propõe que o marido comece. Perde novamente. Na última, o marido pede ao adversário que escolha para ele a peça que deve tirar. O jogo segue, mas logo o homem estende o braço e volta atrás. Percebe que perdeu mais uma vez. No jogo e na outra disputa.

 

O jogo acabou esquecido, mas o filme ficou na cabeça da moçada. Delphine Seyrig era linda. A fotografia, de um mestre: Sacha Vierny. E os diálogos, incríveis. Alguns, no esforço de compreender ou de dizer que haviam compreendido, acabaram vendo o filme várias vezes. No final, cada um entendia uma coisa diferente – talvez fosse justamente isso o que queriam os dois Alain.



Escrito por Mario às 10h32
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A música mais jacu de todos os tempos

Brega só passou a ser sinônimo de mau gosto nos anos 80. Antes disso, alguém ou alguma coisa assim meio discutível era cafona, que vem do final dos 60 e ganhou força nos 70. Virou até título de novela. Mas antes, no começo dos 60, brega era mesmo jacu, que se usava para pessoas e coisas.

Jacu era, por exemplo, usar mocassim branco. Salvo raras exceções, tipo assim o Alain Delon em "O Sol por Testemunha". pegava mal paca, como se dizia na época e hoje virou jacu, ops, brega. E a molecada ainda zoava: perguntava se era pra não subir formiga, como nas árvores, que tinham sua base pintada com cal por causa das saúvas. Jacu também era o cara que deixava crescer a unha do mindinho ou usava esmalte na própria. Jacu, mas jacu, mesmo, era slack ou conjuntinho, aquela roupa estranha que Jânio Quadros inventou e tentou obrigar todo mundo a usar. Era o equivalente da bolsa capanga dos 70.

A molecada também achava jacu usar camisa volta-ao-mundo e sapato 757, da Vulcabrás, mas as mães (que não falavam jacu, mas jeca) não davam outra chance. Durante algum tempo, nabo tentou tomar o lugar de jacu, mas foi uma moda que passou depressa.

Música jacu era o que não faltava. E nem vai faltar por aqui: num furo de reportagem, o Nada no bolso teve acesso a um rico acervo com raridades e o melhor da jacou song da época. A seleção começa com Amorzinho Querido, que não é só a música mais jacu dos anos 60, mas de todos os tempos. Pode procurar em outros blogs que não vai encontrar. Só o Nada no bolso tem a letra do maior sucesso da diva Idalina de Oliveira.

Idalina foi a mais pop star das garotas-propaganda. Estrela da TV Record, vendia de tudo e ainda era a assistente do Capitão 7 (Ayres Campos), o super-herói mais feio que já criaram. Escorpiana de 26 de outubro, Idalina lançava moda. Foi das primeiras a aparecer com o cabelo "gatinho", que não era curto nem longo e tinha as pontas viradas, o que dava a maior canseira para fazer.

Pois um dia – foi em 1962 – Idalina resolveu ser cantora. Mandou ver com Amorzinho Querido, cuja autoria se perdeu. A molecada ficava imaginando se ela pensava no Hélio Ansaldo enquanto cantava. Diziam que rolava um namoro entre os dois. Talvez pensasse sim, ele - super reaça - bem que merecia. A música emplacou e rendeu até um prêmio Chico Viola, dado pela Record, claro. Mas a carreira de Idalina não foi em frente. Ela era bem melhor vendendo Frigidaire e Philco.

Se alguém disser que os anos 60 mudaram a face do mundo, é bom antes ouvir Amorzinho Querido:

Teu rosto moreno, tua boca

Teus olhos que olham, para mim

Tocaram fundo, tão fundo, minha alma

Que já perdi minha calma

E faço loucuras por ti, meu bem.

Amorzinho querido, te falo no ouvido

És o meu bem-querer

Já te dei minha vida, minha alma, meu sangue

Todinho meu ser

E te conto baixinho

Como te quero, quanto te adoro

És o meu bem

Amorzinho, és o meu bem.

Caminssum: A Noiva, Aos Domingos Não, As Folhas Verdes de Verão, Tammy, Creio em Ti, Faz-me Rir, Vou Brigar com Ela, Fiz o Bobão, Inteirinha, O Matador, Canção do Êxodo, Canção do Amor que lhe Dou, Palavras de Amor, E Agora e outros sucessos num blog perto de você.



Escrito por Mario às 15h50
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REVELAÇÕES QUE NÃO SE REVELARAM E OUTROS MICOS DE HOLLYWOOD

É curioso ver em quem se apostava em Hollywood nos anos 60. O Globo de Ouro, concedido pela imprensa estrangeira que cobria a indústria de cinema, tinha um prêmio para as revelações do ano. Muitos dos premiados hoje poderiam figurar na lista dos desaparecidos da Anistia Internacional - promessas que simplesmente não aconteceram. Em compensação, muitos indicados que ficaram de fora tiveram (e alguns ainda têm) uma grande carreira. Deslumbre ou cegueira? O fato é que na década de 70, depois de tantas bolas fora, o prêmio foi extinto.

1960

Quem ganhou: Michael Callan, Mark Damon, Brett Halsey, Ina Balin, Nancy Kwan, Hayley Mills

Quem ficou de fora: Peter Falk, David Jansenn, Robert Vaughn

"Só" sobraram os caras de três das melhores séries de TV de todos os tempos: Columbo, O Fugitivo e Agente da U.N.C.L.E., respectivamente.

 

David Jansenn, "O Fugitivo", morreu em 1980, aos 49 anos

1961

Quem ganhou: Warren Beatty, Richard Beymer, Bobby Darin, Ann-Margret, Jane Fonda, Christine Kaufman

Quem ficou de fora: George C. Scott

Tudo bem quanto a Beatty (pelo excelente Clamor do Sexo, de Elia Kazan), Fonda e Ann-Margret, mas esnobar George C. Scott, que ganhou e recusou o Oscar por Patton foi demais.

E que fim levou a alemãzinha Christine Kaufman, que acabou com o casamento de Tony Curtis e Janet Leigh?

Christine Kaufman

 1962

Quem ganhou: Keir Dullea, Omar Shariff, Terence Stamp, Patty Duke, Sue Lyon, Rita Tushingham

Quem ficou de fora: Peter O´Toole, Suzanne Pleshette

Tirando o canastro Omar Shariff, nada contra os que ganharam (Dullea depois ficaria famoso pelo papel principal em 2001 Uma Odisséia no Espaço), mas esquecer O´Toole foi um vexame, não? E Suzanne Pleshette esteve em Candelabro Italiano, mal ou bem um cult da época.

1963

Quem ganhou: Albert Finney, Stathis Giallelis, Robert Walker, Jr, Ursula Andress, Tippin Hedren, Elke Sommer

Quem ficou de fora: Alain Delon, Peter Fonda, Maggie Smith

Tá certo, Delon devia estar brilhando e andando pelo prêmio, mas quem, hoje, conhece Giallelis (fez América, América, um filme esquecido de Kazan)? Em compensação, Maggie Smith, que deixaram de lado, se tornaria uma das grandes damas do cinema.

1964

Quem ganhou: Harce Presnell, George Segall, Topol, Mia Farrow, Célia Kaye, Mary Ann Mobley

Presnell? Mobley? Bom, pelo menos esse ano não ficou gente boa de fora.

1965

Quem ganhou: Robert Redford, Elizabeth Hartman

Quem ficou de fora: James Caan, James Fox, Geraldine Chaplin

Os três esquecidos estão na estrada até hoje – com toda dignidade.

1966

Quem ganhou: James Farentino, Camila Sparv

Quem ficou de fora: Alan Arkin, Alan Bates, John Philip Law, Candice Bergen, Lynn Redgrave

Aqui exageraram. Sparv who? E os dois Alan e Redgrave, a irmã de Vanessa, grandes atores? E Bergen, que depois casou com Louis Malle? E Law, o anjo de Barbarella? Micaço!

1967

Quem ganhou: Dustin Hoffman, Katharine Ross

Quem ficou de fora: Franco Nero, Faye Dunaway, Sharon Tate

Dunaway não precisou do prêmio para brilhar. Provavelmente, aconteceria o mesmo com Tate, mulher de Polanski, assassinada pouco depois pelos doidões do Charles Manson.

Certíssima a escola de Dustin Hoffman e da bonita Katharine Ross (por A Primeira Noite de um Homem; ela trabalhou logo depois em Butch Cassidy).

Katharine Ross e Dustin Hofffman numa das melhores cenas de A Primeira Noite de um Homem  Foto: Bob Willoughby

1968

Quem ganhou: Leonard Whiting, Olivia Hussey

Quem ficou de fora: Alan Alda, Michel Sarrazin, Jacqueline Bisset

Romeu e Julieta levaram, mas não foram longe. Alda e Bisset (ainda charmosa) continuam na cena.

1969

Quem ganhou: Jon Voight, Ali MacGraw

Quem ficou de fora: Helmut Berger, Michael York, Brenda Vaccaro, Goldie Hawn, Dyann Cannon

 Enfim, um ano sem zebras. A MacGraw (de Love Story) era fraquinha, mas classuda, pena que sumiu. Mereceu ganhar. Voight (hoje o sogrão dos sonhos de todos), por Midnight Cowboy, também. Nesse ano, Goldie Hawn ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Flor de Cactus e não devia estar nem aí com prêmio de revelação.



Escrito por Mario às 10h33
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Mas, afinal, o que havia nessa caixinha?

Buñuel dizia que essa era a pergunta mais inútil que lhe faziam. Mas a dúvida ficou para sempre na cabeça de todos e permanece, até hoje, como um dos maiores mistérios do cinema. O que o oriental sinistro, com ar de lutador de sumô, leva dentro da caixinha preta com madrepérola para as moças do bordel freqüentado por Séverine (Catherine Deneuve), em Belle du Jour (Bela da Tarde, de 1967)?

 

Algumas reagem com repulsa, outras com indignação. Só Severine se interessa. Ninguém fica sabendo, porém, que a tal caixinha guardava. A reação do diretor era sempre a mesma: “Como não tenho idéia, a única resposta possível é: o que você quiser”.

 

E as pessoas queriam quase tudo. Uns, mais espertos, garantiam que se tratava de uma abelha que, introduzida em certas partes, provocava sensações próximas do transe, do eletro-choque ou da levitação, conforme as diferentes interpretações. Buñuel , no entanto, preferia dizer que um pervertido não gosta de mostrar em público sua perversão; ao contrário, faz dela o seu segredo. Penso que hoje, se desse uma voltinha por aí, ele não diria mais isso.

 

A Bela da Tarde, com os devaneios da “burguesa masoquista” Séverine, segundo a definição do próprio Buñuel, foi um escândalo na época. Sob pressão da censura, os produtores exigiram vários cortes. Mesmo assim, é um filmaço, com a marca de um dos diretores mais geniais que o cinema já teve.

 

E você, o que acha que tinha lá? Pensando bem, melhor não falar, não.

P.S: sorry pela foto, foi a melhor que consegui.



Escrito por Mario às 01h08
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Nada no bolso ou nas mãos

Por entre fotos e nomes. É isso - e apenas isso - o que se encontrará neste blog. Como naquelas colagens que a garotada dos anos 60 tinha em seus quartos, com fotos de astros, cantores, grandes nomes do esporte e Che Guevara. E, claro, Jean-Paul Sartre.

 

Sim, são imagens de um caleidoscópio perdido no tempo ao som de Alegria, Alegria, que Caetano Veloso apresentou no Festival da Record em 1967. A década de 60 teve inúmeras caras, mas talvez nenhuma outra música daquele tempo mostre tantas delas. A da rebeldia (“caminhando contra o vento...sem lenço sem documento".  A dos sonhos (“eu quero seguir vivendo, amor"). A de uma confiança que chegava a ser quase desafio (“eu vou, por que não?). A da beleza (“Em Cardinales bonitas eu vou"/ "Em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot"). A de um novo tempo, que virava o mundo de cabeça para baixo (“espaçonaves, guerrilhas"). A cara da ruptura. Foi a primeira vez que se usou guitarras elétricas na música popular brasileira, para indignação dos "quadrados".  

 

Alegria, Alegria tem muitas curiosidades. Caetano foi acompanhado por um grupo de rock de argentinos e brasileiros, os cabeludos Beat Boys. A palavra alegria, que não aparece na letra, era uma homenagem a Chacrinha e a um de seus melhores bordões. A música acabou mais conhecida por uma citação - nada no bolso ou nas mãos - tirada de Sartre, que estava na cabeça da moçada da época mais do que gumex, para os carinhas, e bóbis, para as meninas.

 

Está na última página de As Palavras, reflexão sobre a escrita e a leitura, sobre o papel do escritor, sobre a infância, sobre a vida, enfim:

 

O que gosto na minha loucura é que ela me protegeu, desde o primeiro dia,
das seduções da "elite": nunca acreditei ser o feliz proprietário de um
"talento" : meu único negócio era salvar-me - 
nada nas mãos, nada nos
bolsos
 - pelo trabalho e pela fé. Assim, minha pura opção não me colocava
acima de ninguém: sem equipamento, sem ferramentas, dediquei-me
inteiramente ao trabalho para me salvar por inteiro. Se classifico a
impossível Salvação na loja dos acessórios, o que sobra? Um homem
completo, feito de todos os homens e que vale por todos e que vale qualquer
um.
(Tradução: Bebé Segurado)

 

Bem anos 60, não? Pior é que eu continuo achando esse texto demais.

 

As Palavras chegou às livrarias em 1964. No mesmo ano, Jean-Paul Sartre ganhou -- e recusou -- o Nobel de Literatura. Receber o prêmio, alegou, seria reconhecer o princípio da autoridade. Naquela época, havia quem pensasse assim.

 



Escrito por Mario às 23h55
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O vira-lata que salvou a honra da pérfida Albion

 No final de março de 1966, a personalidade mais famosa da Inglaterra não era nenhum dos Beatles. Nem Mick Jagger. Nem Julie Christie, que tinha acabado de levar o Oscar de melhor atriz. Nem Jean Shrimpton, a primeira top model. Nem Mary Quant, com a revolução da mini-saia. Nem George Best, o Beckham da época, sem o lado fashion e deslumbrado. Nem mesmo a rainha Elizabeth.

A cerebridade do momento foi Pickles, um vira-lata de dois anos, de pêlo preto e branco, que virou herói nacional. Seus 15 minutos de fama duraram semanas. 

No dia 27 de março, Pickles passeava com seu dono, David Corbett, que trabalhava em uma embarcação no Tâmisa, no sul de Londres. Parou para o xixi habitual nuns arbustos, deu a clássica cavadinha e começou a cheirar um estranho pacote, coberto por jornais.

Corbett foi ver do que se tratava e descobriu uma estatueta de 30 centímetros de altura e 1,82 quilo de ouro puro, avaliada em 30 mil libras esterlinas. Pickles tinha descoberto, sozinho, o que toda Scotland Yard vinha procurando sem sucesso há uma semana: a taça Jules Rimet, roubada do Westminster Central Hall, onde estava sendo exibida, a três meses da Copa do Mundo que a Inglaterra preparava. Um sacrilégio, segundo os jornais brasileiros. Aqui, o caneco era sagrado, diziam.

A descoberta rendeu a Corbett uma recompensa de quase 5 mil dólares, mais do que cada jogador inglês ganhou pela conquista da Copa, por sinal vergonhosamente roubada dos alemães. Pickles não chegou a receber o título de Sir, mas virou pop star. Só não se sabe se a grana lhe garantiu bons filés até a morte, em 1973.

Criação do escultor francês Abel Lafleur, inspirada na famosa Vitória de Samotrácia, a escultura grega exibida na entrada do Louvre, a Jules Rimet voltou para o Brasil quatro anos depois, com a conquista do tricampeonato. Era para ser para sempre, mas o sempre acabou em 1983. A taça foi roubada e derretida e não houve nem um Totó ou Rex para evitar nossa vergonha.



Escrito por Mario às 14h36
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Você sabe tirar o cavaco do pau?

A molecada da época muito menos. A música de Jorge Veiga tocando, tocando (naquele 1964 não se ouviu só Datemi un Martello e The Girl from Ipanema) e ninguém para explicar o que era (ou quem era) o bigorrilho. Nem mesmo o Aurélio. Mas que tinha sacanagem, e da grossa, nessa história, ninguém duvidava. Trinta anos depois, Lulu Santos trouxe o bicho de volta, sem tanto sucesso. A tal revolução sexual que o siri no pau provocou já tinha acontecido e bigorrilhos não intrigavam mais ninguém. Que Dadás e Didis ainda não tinham visto (ou pegado) um?

Jorge Veiga, o pai do "Bigorilho"


Lá em casa tinha um bigorrilho
Bigorrilho fazia mingau
Bigorrilho foi quem que me ensinou
A tirar o cavaco do pau

Trepa Antônio
Siri tá no pau
Eu também sei tirar
O cavaco do pau

Dona Dadá
Dona Didi
Seu marido entrou aí

Ele tem que sair.
Ele tem que sair.


Música:Sebastião Gomes/Paquito/Romeu Gentil

Claro que logo criaram uma paródia de protesto, que se cantava baixinho, em "homenagem" a Castello Branco. Pena que se perdeu com o tempo. Começava assim:

Em Brasília, tem um bigorrilho...

E todo mundo se empolgava no final:

Ele tem que sair,ele tem que sair.

Ele acabou saindo. E o que veio depois foi pior.



Escrito por Mario às 13h22
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